Eu não sou eu


“Vai ser médico quando crescer”, “Ela é tão delicada!”, “Como você é teimoso!”, “Come tudo pra mamãe ficar feliz”, “Se não dividir o brinquedo, o amigo vai ficar triste”, “É melhor cumprimentar sua vó, ou te ponho de castigo”. E assim vamos nos formando à moda do que é esperado de nós, dos desejos do outro, de comportamentos que nos facilitem a conquista da provisão narcísica que tanto nos é cara nos primeiros anos de vida. E assim mesmo deve ser; é assim que dá pra ser.

Freud cunha o termo ego ideal para definir esse eu que gostaríamos de ser, que nossos pais idealizaram, que atenderia aos desejos do outro e, consequentemente, nos traria mais provisões de ordem narcísica (o colo, o seio, o olhar, a admiração, o amor). Em contraponto, Freud descreve o ideal de ego, instância que se formaria a partir do Complexo de Édipo e que nos permitiria identificarmo-nos com os desejos de outros, não mais para atendê-los, mas sim para podermos autorizar nosso próprio desejo; com essa substituição nós passaríamos a viver a partir de nossos próprios impulsos, subsidiados (e não moldados) pelas pessoas que admiramos e com quem nos identificamos.

E agora, adultos que somos, será que já damos conta de viver a partir de nossos próprios desejos? Isso implica em, primeiramente, poder acessá-los: os desejos, que são em grande parte inconscientes, podem não ser tão belos e formatados quanto gostaríamos que fossem (aliás, é bastante provável que eles sejam bem esquisitos). Depois, outra implicação se impõe: poder bancá-los no mundo compartilhado, corajosamente, mesmo às custas do desagrado das pessoas ao nosso redor: o que nós desejamos, certamente, nos diferencia da figura que nossos pais idealizaram de nós, por exemplo. Por fim, uma última implicação: precisaremos fazer escolhas entre os desejos que faremos questão de satisfazer e os desejos aos que teremos que abdicar, afinal, vivemos sob um contrato social e precisamos articular um acordo entre o que desejamos e o que é possível no contexto de uma vida em comunidade, inserida em uma cultura. 


Muitos são os sofrimentos trazidos aos consultórios psicanalíticos que encontram raízes nessa temática. Reconhecermos nossos reais desejos, bancá-los, realizá-los ou aceitarmos abdicar de alguns deles podem ser tarefas dificílimas, que muitas vezes só são possíveis com muito trabalho analítico. No entanto, podermos viver por quem nós realmente somos, tendo nossos ideais como faróis norteadores e não como molduras limitantes, é potente, libertador e, acima de tudo, necessário e urgente.

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